Acessibilidade Instrumental no ensino de Desenho Técnico: desenvolvimento e validação de um compasso adaptado via manufatura aditiva
Resumo
A democratização do acesso ao ensino superior, impulsionada pela Lei Brasileira de Inclusão, impõe o desafio da permanência acadêmica, especialmente em cursos de Engenharias, Arquitetura e Design, que demandam competências gráficas complexas. O Desenho Técnico, tradicionalmente ensinado sob uma lógica visualista, configura-se como uma barreira instrumental severa para discentes com cegueira ou baixa visão devido à escassez de instrumentos adaptados que traduzam conceitos geométricos para a modalidade tátil-cinestésica. Este estudo objetivou desenvolver e prototipar um compasso acessível utilizando a manufatura aditiva como vetor de democratização da Tecnologia Assistiva. A metodologia adotou a abordagem de desenvolvimento focada no usuário, estruturando-se em ciclos iterativos de análise de contexto, design e avaliação prática. Partindo de um benchmarking que confirmou a inexistência de soluções comerciais e da seleção de um modelo open source em repositórios digitais, aplicou-se uma Matriz Morfológica para definição de requisitos, seguida de modelagem paramétrica em software CAD e impressão 3D em PLA. Os resultados dos primeiros ciclos de prototipagem revelaram limitações técnicas críticas: a resolução da impressão FDM em peças de dimensões reduzidas tornou a leitura da numeração em braille inviável devido à falta de espaço físico e definição tátil. As iterações projetuais levaram à incorporação de uma ponta seca fixa para garantir estabilidade no manuseio monomanual e, disruptivamente, à remoção total do braille em favor de um sistema intuitivo de contagem de furos. A validação final com o usuário confirmou que a simplificação do design aumentou a eficácia, permitindo a execução autônoma de circunferências. Conclui-se que a integração entre Design Centrado no Usuário e impressão 3D viabiliza a produção descentralizada de Tecnologia Assistiva de baixo custo, superando lacunas mercadológicas. O estudo demonstra que a Acessibilidade Instrumental efetiva não depende da complexidade tecnológica, mas da adequação ergonômica às necessidades reais de percepção háptica do usuário, promovendo a equidade no aprendizado espacial.
Referências
ALONSO, Carolina Maria do Carmo et al. Tecnologia assistiva na Lei Brasileira de Inclusão e nas políticas de saúde e educação no Brasil: uma revisão textual à luz dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, [São Carlos, SP], v. 34, e4130, 2026. DOI: 10.1590/2526-8910.cto.418641301.
BASTOS, Paula Alessandra Lima Santos et al. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, [São Carlos, SP], v. 31, e3401, 2023. DOI: 10.1590/2526-8910.ctoAO260434011.
BRASIL. Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nº 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, seção 1, ano 141, n. 232, p. 5-10, 3 dez. 2004.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 152, n. 127, p. 2-11, 7 jul. 2015.
BRASIL. Lei nº 13.409, de 28 de dezembro de 2016. Altera a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, para dispor sobre a reserva de vagas para pessoas com deficiência nos cursos técnicos de nível médio e superior das instituições federais de ensino. Diário Oficial da União: Brasília, DF, seção 1, ano 153, n. 250, p. 3, 29 dez. 2016.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. 3. ed. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.
BRASIL. Lei nº 14.126, de 22 de março de 2021. Classifica a visão monocular como deficiência sensorial, do tipo visual. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 159, n. 55, p. 3, 23 mar. 2021.
BRUNO, Marilda Moraes Garcia. Avaliação educacional de alunos com baixa visão e múltipla deficiência na educação infantil. Dourados, MS: Editora da UFGD, 2009.
DA COSTA JUNIOR, Jairo; SANTOS, Aguinaldo; TENORIO, Rosangela. Fabricação pessoal orientada à economia circular e produção distribuída: estudo exploratório. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO EM DESIGN, 14., 2022, Rio de Janeiro. Anais [...]. São Paulo: Blucher, 2022. [v. 10, n. 5, p. 7701-7715]. DOI: 10.5151/ped2022-6219462.
DELGADO GARCIA, Jesus Carlos; ITS BRASIL — Instituto de Tecnologia Social
(org.). Livro Branco da Tecnologia Assistiva no Brasil. São Paulo: ITS Brasil, 2017.
ITS BRASIL p. ISBN 978-85-64537-28-6.
FRANCO, Taynara Araújo; GONÇALVES, Pedro Henrique. Tecnologias assistivas aplicadas através de modelagem tridimensional. Plural Design, [Joinville, SC], v. 8, n. 1, p. 75-83, 2025. DOI: 10.21726/pl.v8i1.2862.
FP-CREATOR. Ruler+Compass. In: THINGIVERSE. [S. l.], Jan 18, 2016.
Disponível em: https://www.thingiverse.com/thing:1277403. Acesso em: 21 mai. 2025.
GIORDANO, Caio Mezzeti; ZANCUL, Eduardo de Senzi; RODRIGUES, Vinícius Picanço. Análise dos custos da produção por manufatura aditiva em comparação a métodos convencionais. Revista Produção Online, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 499-523, abr./jun. 2016. DOI: 10.14488/1676-1901.v16i2.1963.
GUIMARÃES, Márcio James Soares. Processo de leitura e interpretação visotátil de livros ilustrados. REIN - Revista Educação Inclusiva, Campina Grande, PB, v. 6, n. 1, p. 26-42, 23 dez. 2021. Disponível em: https://revista.uepb.edu.br/REIN/en/article/view/584/938. Acesso em: 15 set. 2026.
MULTIPLANO: Multiplano e Tecassistiva, a mais nova parceria que veio para mudar a forma de ensinar e aprender Matemática. In: TECASSISTIVA: Tecnologia & Acessibilidade. São Paulo, [2026]. Disponível em: https://www.tecassistiva.com.br/produtos/multiplano/. Acesso em: 15 set. 2026.
PEREIRA, Lauriane et al. Towards an understanding of benefits and challenges in the use of Design Thinking in Requirements Engineering. In: ACM/SIGAPP SYMPOSIUM ON APPLIED COMPUTING, 36., 2021. Proceedings [...]. New York: ACM, 2021. p. 1338-1345. DOI: 10.1145/3412841.3442008.
PEREZ, Iana Uliana; SANTOS, Aguinaldo dos. Uso da fabricação digital para o Design de Superfície em produtos de moda. ModaPalavra e-periódico, [Florianópolis], v. 11, n. 21, p. 56-78, jan./jun. 2018. DOI: 10.5965/1982615x11212018056.
RODRIGUES, Vinícius Picanço et al. Manufatura aditiva: estado da arte e framework de aplicações. Revista Gestão da Produção, Operações e Sistemas, Bauru, SP, v. 12, n. 3, p. 1-34, jul./set. 2017. DOI: 10.15675/gepros.v12i3.1657.
SANTOS, Bárbara Tatiele; BRENDLER, Clariana Fischer. Análise da eficiência de técnicas de fabricação de órteses por impressão 3D: uma revisão sistemática. Plural Design, [Joinville, SC], v. 7, n. 2, p. 68-79, 2024. DOI: 10.21726/pl.v7i2.2571.
SCHEEREN, Rodrigo. Fabricação digital na América do Sul: laboratórios, estratégias, processos e artefatos para o design, a arquitetura e a construção. 2021. 297 f. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) – Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, SP, 2021. DOI: 10.11606/T.102.2021.tde-05042022-173034.
SARTORETTO, Mara Lúcia; BERSCH, Rita. Tecnologia assistiva. [S. l.]: Assistiva — Tecnologia e Educação, 2017. Disponível em: https://www.assistiva.com.br/tassistiva.html. Acesso em: 21 mai. 2025.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. Revista Nacional de Reabilitação (Reação), São Paulo, ano 12, p. 10-16, mar./abr. 2009.
VIANNA, Maurício et al. Design thinking: inovação em negócios. Rio de Janeiro: MJV Press, 2012.
VOLPATO, Neri (org.). Manufatura aditiva: tecnologias e aplicações da impressão 3D. São Paulo: Blucher, 2017.
VIGATA, Helena Santiago. A experiência artística das pessoas com deficiência visual em museus, teatros e cinemas: uma análise pragmaticista. 2016. 313 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília, 2016. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/20397/1/2016_HelenaSantiagoVigata.pdf. Acesso em: 15 set. 2026.
VYGOTSKY, SLev Semiónovic. Obras Escogidas: V: Fundamentos de defectología. Madrid: Visor, 1997.



.png)