Reabilitação para pessoas com deficiência visual: reflexões sobre possíveis entraves para o acesso e motivações para o abandono precoce
Resumo
O objetivo deste artigo é fazer uma discussão sobre os fatores que podem estar relacionados às dificuldades de acesso e ao abandono precoce de programas de reabilitação por seus usuários com deficiência visual. A oferta de reabilitação em deficiência visual pode partir tanto de instituições de educação especial, quanto de centros especializados vinculados à Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo os problemas relacionados ao acesso e abandono fenômenos pouco explorados. Por meio de um relato de experiência de um serviço de psicologia de uma instituição de educação especial que presta atendimento a este público, este artigo se debruça em dados institucionais que apontam elementos que podem contribuir para a compreensão dos entraves no acesso e do abandono precoce do programa, entrelaçando-os com referenciais teóricos sob a ótica do modelo social da deficiência. Dados quantitativos e qualitativos do perfil geral de matriculados no programa nos anos de 2019 e 2023 e informações advindas de dificuldades enfrentadas no processo discutidas em atendimentos grupais de Psicologia foram utilizados com o propósito de compreender características que possam estar vinculadas a eventuais obstáculos no processo e convergir para o abandono. O texto aponta sobre a necessidade de que a organização dos serviços institucionais se aproxime das eventuais dificuldades enfrentadas pelas pessoas em reabilitação, ambos sujeitos a problemáticas específicas. A discussão acentua que o tema exige uma leitura cuidadosa por se tratar de uma questão multifatorial, melhor compreendida sob um olhar interseccional. Ressalta-se a importância de procedimentos institucionais que permitam a compreensão das causas do abandono precoce e da adoção de estratégias de monitoramento e apoio aos usuários.
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