Acessibilidade digital para pessoas com baixa visão: uma análise da literatura sobre as Web Content Accessibility Guidelines (WCAG) 2.2 no contexto brasileiro

  • Rodrigo Minutti Recchia Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
  • Daniela Aparecida Mario Associação Bengala Verde
  • Mariana Santis Sampaio Mattos Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
  • Amanda Amorim Rodrigues Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
  • Maria Elisabete Salvador Graziosi Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
  • Rita Simone Lopes Moreira Grupo de Assistência, Ensino e Pesquisa Interdisciplinar e Inovação em Saúde, Escola Paulista de Enfermagem (UNIFESP)
  • Cecília Francini Cabral de Vasconcellos Associação Bengala Verde
  • Vagner Rogério dos Santos Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Palavras-chave: Acessibilidade Digital, WCAG 2.2, Baixa visão, Inclusão digital, Pessoa com deficiência visual

Resumo

A acessibilidade digital é um direito fundamental que assegura o acesso igualitário à informação e à comunicação no ambiente on-line, especialmente para pessoas com deficiência visual. Este artigo tem como objetivo analisar a produção científica sobre as recomendações de acessibilidade para conteúdo web - Web Content Accessibility Guidelines (WCAG) 2.2 - e sua aplicação na promoção da acessibilidade digital para pessoas com baixa visão, no contexto brasileiro. Para tanto, foi realizada uma busca sistemática nas bases Lilacs, Scielo e Google Acadêmico, com critérios de inclusão voltados para estudos que abordassem diretamente a implementação ou avaliação das diretrizes WCAG em ambientes digitais acessados por pessoas com deficiência visual. Os resultados evidenciaram uma escassez significativa de estudos: nenhum artigo específico sobre WCAG 2.2 foi encontrado nas bases tradicionais, e apenas seis estudos dos 29 identificados atenderam aos critérios estabelecidos. Essa limitação se justifica, em parte, pela recente publicação das diretrizes, em outubro de 2023. Além disso, dados de estudos nacionais indicam um cenário preocupante: menos de 1% dos sites brasileiros conseguem aprovação em testes básicos de acessibilidade, e cerca de 79,4% dos profissionais de tecnologia da informação nunca passaram por treinamento formal sobre acessibilidade digital. Os sistemas apresentaram problemas recorrentes de contraste visual inadequado, navegação inexistente por teclado e ausência de textos alternativos em elementos gráficos, comprometendo o acesso à informação, à educação, às oportunidades profissionais e à autonomia cotidiana de pessoas com deficiência visual. Conclui-se que há uma discrepância preocupante entre a disponibilidade das diretrizes WCAG 2.2 e sua implementação efetiva no Brasil, o que evidencia a necessidade urgente de ações coordenadas que incluem: capacitação profissional, sensibilização da sociedade e o reconhecimento da acessibilidade digital como responsabilidade ética e política no cenário da inclusão tecnológica.

Biografias dos Autores

Rodrigo Minutti Recchia, Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Mestre Profissional em Tecnologia, Gestão e Saúde Ocular

Daniela Aparecida Mario, Associação Bengala Verde

Administradora

Mariana Santis Sampaio Mattos, Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Mestranda Profissional em Tecnologia, Gestão e Saúde Ocular

Amanda Amorim Rodrigues, Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Mestra Profissional em Tecnologia, Gestão e Saúde Ocular

Maria Elisabete Salvador Graziosi, Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Doutora em Ciências

Rita Simone Lopes Moreira, Grupo de Assistência, Ensino e Pesquisa Interdisciplinar e Inovação em Saúde, Escola Paulista de Enfermagem (UNIFESP)

Doutora em Ciências

Cecília Francini Cabral de Vasconcellos, Associação Bengala Verde

Psicóloga

Vagner Rogério dos Santos, Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Doutor em Ciências

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Publicado
2026-03-19
Seção
Ensaios e Revisões de Literatura